03
Bom, lá estava Franco, louco babando por uma mentira que eu em breve contaria. Eu não contaria mentiras, contudo, mas para o Franco, isso não vinha ao caso. Apenas ele contava verdades, e todo mundo sabia que isso era uma mentira.
Não preciso continuar para deixar claro o quanto tentar ponderar com ele sobre isso era inútil. Como praticamente tudo em relação ao Franco.
E porque estou sendo incisivo exatamente em relação a este paranóico detector de mentiras decaído? Porque Franco teve um papel decisivo no Morro da Canastra. E o comeu. Literalmente.
- Eu achei o mapa da mina.
Pronunciei esta frase e então o silêncio caiu como um bebê aprendendo a andar: tropeça, cai, olha pra todo mundo e, depois de um momento de ponderação, sei lá, ele chora. Eu falei, eles me olharam, olharam um para o outro, esperaram e depois desceram a lenha:
- Ah, vai te catar, porra!
- Começa logo, infeliz!
- Zé Ruela!
Eu me interpus na zona, coisa que faço muito pouco na vida, e disse:
- Já comecei. Eu achei o mapa da mina.
Talvez tenha sido impressão minha, mas visualizei a ascensão e queda do punho de Sérgio no auge da minha cara. De toda forma, comecei a ficar preocupado com a próxima frase que eu ia proferir. Então, após ponderar bem sobre a situação, a desvantagem numérica o valor do spread bancário eu proferi:
- Vão se catar então!
Não lembro se foi o Franco que segurou o Sérgio, ou se foi o Sérgio que derrubou o Franco tentando chegar até mim com sanha assassina, ou se foi um evento cósmico diverso que resultou na minha escapada, mas fato é que eu tô aqui. Vivim. Quando voltou a falar, o Sérgio estava meio atordoado, o que me fez crer que daquela vez pelo menos não vinha um murro.
- Ô, Jonas – falou Sérgio.
- Quié.
- Sério cara, que diabos tu fez para a Sandrinha querer te enforcar com tripas que ela quer arrancar de você?
- Eu achei o mapa da mina, desgraça. Lesou de vez é?
- Tá mentindo descaradamente.
Preciso dizer quem foi o autor desta frase? Não, claro.
- Vocês se lembram do Leonardo?
- Aquele cara todo engomadinho de colégio particular que tinha trezentas garotas ao redor pedindo para se desmanchar em pedaços para elas, como se fosse um chocolate humano? Aquele playboyzinho de olho azul e cabelo loiro inteligente desprezível que desequilibrava a balança da justiça sexual do bairro? Aquele traficante de influência que carregava todas as virgens e não-virgens do céu para seu harém moderno ocidental e..
- É, é! Calaboca, porra, Franco, porra! – exasperou-se Sérgio, e em seguida suspirou bem fundo, um suspiro no qual pareceu caber o destino da vida de Franco. Depois tornou a falar, mais calmo, pelo menos aparentemente:
- Tá, depois da antológica definição do Franco, que tem de tudo para desviar minha atenção para o que realmente estou querendo saber,- e a partir deste ponto Sérgio sagrou-se de pé, desafinado e vermelho - MAS NÃO VAI! – baixou novamente a voz e voltou ao tom normal - Eu pergunto: - e voltou a falar como um balão se esvaziando a esmo - O QUE É QUE TEM UMA COISA A VER COM A OUTRA, DROGA?
- Bom – eu continuei – O Leonardo, com todos esses defeitos aí que o Franco listou…
- O cara não tinha defeitos – interveio sagazmente o Franco – Acho que fui bem claro quanto a isso. Ele simplesmente era uma máquina de atrair mulher, um verdadeiro sultão com rastro de fêmea, o próprio Alexandre, O Grande da…
- DA CAIXA PREGO, INFERNO! – gritou Sérgio – Que diabos é isso aqui, Franco? O “fã clube do mau” do Leonardo?! Tenha a santa paciência, eu estou querendo chegar no fio da meada! Dá pra calar essa maldita boca ou vou ter que pregar uma foto 3×4 do Leonardo na sua cara a ferro quente?
Franco provavelmente ia responder.
Na verdade, com certeza ele ia responder.